Dia do Índio: temos motivos para comemorar?

By Leila Maria - abril 19, 2017






Em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, estimava-se que havia por aqui cerca de 6 milhões de índios.
Nos anos 50, segundo o antropólogo Darcy Ribeiro, a população indígena brasileira estava entre 68.000 e 100.000 habitantes.


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Passados os tempos de matança, escravismo e catequização forçada, atualmente há cerca de 280.000 índios no Brasil.


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Contando os que vivem em centros urbanos, a população indígena ultrapassa os 300.000. No total, quase 12% do território nacional pertence aos índios.
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, havia em torno de 1.300 línguas indígenas. Atualmente existem apenas 180. O pior é que cerca de 35% dos 210 povos com culturas diferentes têm menos de 200 pessoas..


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Hoje em dia, o que parecia impossível está acontecendo: o número de índios no Brasil e na Amazônia está aumentando cada vez mais. A taxa de crescimento da população indígena é de 3,5% ao ano, superando a média nacional, que é de 1,3%.


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Em melhores condições de vida, alguns índios recuperaram a sua auto-estima, reintroduziram os antigos rituais e aprenderam novas técnicas, como pescar com anzol.
Muitos já voltaram para a mata fechada, com uma grande quantidade de crianças indígenas. "O fenômeno é semelhante ao baby boom do pós-guerra, em que as populações, depois da matança geral, tendem a recuperar as perdas reproduzindo-se mais rapidamente", diz a antropóloga Marta Azevedo, responsável por uma pesquisa feita pelo Núcleo de Estudos em População da Universidade de Campinas.


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Com terras garantidas e população crescente, pode parecer que a situação dos índios se encontra agora sob controle. Mas não! O maior desafio da atualidade é manter viva sua riqueza cultural.
Organização e Sobrevivência do Grupo
Os índios brasileiros sobrevivem utilizando os recursos naturais oferecidos pelo meio ambiente com a ajuda de processos rudimentares. Eles caçam, plantam, pescam, coletam e produzem os instrumentos necessários a essas atividades.


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A terra pertence a todos os membros do grupo e cada um tira dela seu próprio sustento.Existe uma divisão de tarefa por idade e por sexo: em geral, cabe à mulher o cuidado com a casa, as crianças e a roça; o homem é responsável pela defesa, pela caça (que pode ser individual ou coletiva) e pela colheita de alimentos na floresta.


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Os mais velhos - homens e mulheres - adquirem grande respeito por parte de todos.A experiência conseguida por muitos anos de vida os transforma em símbolos de tradições da tribo. O pajé é uma espécie de curandeiro e conselheiro espiritual.


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                                                           Dia do Índio


Neste Dia do Índio não há o que se comemorar quando se trata do cumprimento dos direitos indígenas previstos na Constituição de 1988. O país vive um momento em que os direitos indígenas estão sendo fortemente atacados na forma de projetos de lei em tramitação no Congresso e medidas administrativas que propõem dificultar as regras para a demarcação de terras indígenas.
Enquanto isso, o governo federal também ataca em diversas frentes: nomeou como ministro da Justiça um notório ruralista, ao mesmo tempo em que vem sistematicamente esvaziando a capacidade da Fundação Nacional do Índio (Funai) de implementar a política indígena nacional. Segundo estudos realizados pelos próprios servidores do órgão, a fundação conta com apenas 2.142 servidores quando o número ideal de servidores seria de 5.965.
O resultado é que inúmeros processos de demarcação, que asseguram aos povos o seu território e a garantia de continuidade de seu modo de vida, estão paralisados, deixando territórios tradicionais vulneráveis à invasão e acirrando conflitos pela terra, colocando os povos indígenas em perigo.
A via crucis de Sawré Muybu
Para o povo Munduruku, este 19 de abril registra também o aniversário de um ano da publicação do relatório que identificou e delimitou a terra indígena Sawré Muybu como território tradicional, no rio Tapajós, após 15 anos de luta. Agora, falta o Ministério da Justiça declarar Sawré Muybu como terra indígena tradicional e enviar o processo para homologação do Presidente da República. 
Ao todo, foram apresentadas à Funai oito contestações buscando impedir a demarcação deste território, entre elas uma do Ministério de Minas e Energia, outra de associações ligadas ao setor de mineração de ouro, e uma até da Confederação Nacional da Indústria, demonstrando os poderosos interesses que se opõem à demarcação das terras indígenas no Brasil. Em novembro do ano passado, após protesto realizado por cerca de 80 lideranças do povo Munduruku em Brasília, o presidente da Funai reconheceu que as contestações sequer tinham sido analisadas.
Embora tenham sido vencidos todos os prazos legais previstos pelo Estado brasileiro, o processo de reconhecimento da TI Sawré Muybu continua paralisado na burocracia estatal. Como se vê, os planos de construção de hidrelétricas na bacia do Tapajós e de outros projetos de infraestrutura que ameaçam a floresta e os povos da região continuam bloqueando a demarcação do território que deveria estar garantido aos Munduruku, conforme prevê a Constituição.
A ameaça das hidrelétricas
Apesar da vitória histórica obtida pelo povo Munduruku e seus aliados que impediu a construção da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, o processo de licenciamento da hidrelétrica pode ressurgir num novo cenário legal que vem sendo negociado pelo governo federal e que pretende acelerar o licenciamento de grandes obras.  Se isso for aprovado, as hidrelétricas poderiam obter licenciamento ambiental em tempo recorde e sem qualquer participação da sociedade no debate acerca de seus impactos.
É neste cenário que os Munduruku continuam a reforçar suas estratégias de resistência, associando sua atuação política a dos demais povos indígenas do país, que na semana do dia 24 a 28 de abril estarão em Brasília para a Mobilização Nacional Indígena.
Além dessa integração com os demais povos em luta, os Munduruku devem enviar seu Cacique Geral para participar do Fórum Permanente para Questões Indígenas da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, para que ele denuncie o contexto de ataques aos direitos indígenas no Brasil e volte a denunciar o perigo que as hidrelétricas na Amazônia oferecem aos povos indígenas e às populações tradicionais da região.

Apoie a luta dos Munduruku pela proteção do Tapajós. 
Acesse e assine: www.tapajos.org


"O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo." (CARTA DO CHEFE INDÍGENA SEATTLE - 1854)


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