Minha infância

By Leila Maria - agosto 09, 2014



Éramos quatro as filhas de minha mãe.
Entre elas ocupei sempre o pior lugar.
Duas me precederam – eram lindas, mimadas.
Devia ser a última, no entanto,
veio outra que ficou sendo a caçula.


Quando nasci, meu velho Pai agonizava,

logo após morria.
Cresci filha sem pai,
secundária na turma das irmãs.


Eu era triste, nervosa e feia.

Amarela, de rosto empalamado.
De pernas moles, caindo à toa.
Os que assim me viam – diziam:
“- Essa menina é o retrato vivo
do velho pai doente”.


Tinha medo das estórias

que ouvia, então, contar:
assombração, lobisomem, mula sem cabeça.
Almas penadas do outro mundo e do capeta.
Tinha as pernas moles
e os joelhos sempre machucados,
feridos, esfolados.
De tanto que caía.
Caía à toa.


Caía nos degraus.

Caía no lajedo do terreiro.
Chorava, importunava.
De dentro a casa comandava:
“- Levanta, moleirona”.


Minhas pernas moles desajudavam.

Gritava, gemia.
De dentro a casa respondia:
“- Levanta, pandorga”.


Caía à toa…

nos degraus da escada,
no lajeado do terreiro.
Chorava. Chamava. Reclamava.
De dentro a casa se impacientava:
” – Levanta, perna-mole…”


E a moleirona, pandorga, perna-mole

se levantava com seu próprio esforço.


Meus brinquedos…

Coquilhos de palmeira.
Bonecas de pano.
Caquinhos de louça.
Cavalinhos de forquilha.
Viagens infindáveis…
Meu mundo imaginário
mesclado à realidade.


E a casa me cortava: “menina inzoneira!”

Companhia indesejável – sempre pronta
a sair com minhas irmãs,
era de ver as arrelias
e as tramas que faziam
para saírem juntas
e me deixarem sozinha,
sempre em casa.


A rua… a rua!…

(Atração lúdica, anseio vivo da criança,
mundo sugestivo de maravilhosas descobertas)
- proibida às meninas do meu tempo.
Rígidos preconceitos familiares,
normas abusivas de educação
- emparedavam.


A rua. A ponte. Gente que passava,

o rio mesmo, correndo debaixo da janela,
eu via por um vidro quebrado, da vidraça
empanada.


Na quietude sepulcral da casa,

era proibida, incomodava, a fala alta,
a risada franca, o grito espontâneo,
a turbulência ativa das crianças.


Contenção… motivação…Comportamento estreito,

limitando, estreitando exuberâncias,
pisando sensibilidades.
A gesta dentro de mim…
Um mundo heroico, sublimado,
superposto, insuspeitado,
misturado à realidade.


E a casa alheada, sem pressentir a gestação,

acrimoniosa repisava:
” – Menina inzoneira!”
O sinapismo do ablativo
queimava.


Intimidada, diminuída. Incompreendida.

Atitudes impostas, falsas, contrafeitas.
Repreensões ferinas, humilhantes.
E o medo de falar…
E a certeza de estar sempre errando…
Aprender a ficar calada.
Menina abobada, ouvindo sem responder.


Daí, no fim da minha vida,

esta cinza que me cobre…
Este desejo obscuro, amargo, anárquico
de me esconder,
mudar o ser, não ser,
sumir, desaparecer,
e reaparecer
numa anônima criatura
sem compromisso de classe, de família.


Eu era triste, nervosa e feia.

Chorona.
Amarela de rosto empalamado,
de pernas moles, caindo à toa.
Um velho tio que assim me via
dizia:
“- Esta filha de minha sobrinha é idiota.
Melhor fora não ter nascido!”


Melhor fora não ter nascido…

Feia, medrosa e triste.
Criada à moda antiga,
- ralhos e castigos.
Espezinhada, domada.
Que trabalho imenso dei à casa
para me torcer, retorcer,
medir e desmedir.
E me fazer tão outra,
diferente,
do que eu deveria ser.
Triste, nervosa e feia.
Amarela de rosto empapuçado.
De pernas moles, caindo à toa.
Retrato vivo de um velho doente.
Indesejável entre as irmãs.


Sem carinho de Mãe.

Sem proteção de Pai…
- melhor fora não ter nascido.


E nunca realizei nada na vida.

Sempre a inferioridade me tolheu.
E foi assim, sem luta, que me acomodei
na mediocridade de meu destino.

 Cora Coralina

cora-coralina





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